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Tu És o Glorioso - 28

Em 1907, nascia a rivalidade mais antiga do Brasil: o Clássico Vovô
Atualizado em 22-04-2016, 18h00


Por Auriel de Almeida - Historiador

Botafogo e Fluminense realizam aquele que é considerado o dérbi mais antigo do Brasil: o Clássico Vovô. Os dois gigantes do futebol carioca se enfrentam desde 1905, mas pode-se dizer que foi em 1907 que ambos, de fato, se tornaram rivais. Naquele ano alvinegros e tricolores disputaram acirradamente o título do Campeonato Carioca e, após um empate em número de pontos e desentendimentos diversos entre as diretorias, viram o mesmo ser definido apenas 90 anos depois, quando ambos foram proclamados campeões.
 
Curiosamente, o Fluminense foi uma grande inspiração para os jovens rapazes que fundaram o Botafogo, e as relações entre os dois clubes era de respeito e amizade. Mas naquele ano, as diretorias se estranhavam, discordando em quase todas as tomadas de decisão da liga de futebol.
 
Em campo, a estreia dos alvinegros não foi boa: uma derrota por 3 a 0 para o Fluminense, campeão do ano anterior. Os rapazes alvinegros demonstraram habilidade, mas foram atrapalhados pelo nervosismo e afobação na conclusão das jogadas – e lamentaram, ainda, a ausência do capitão Antônio Luiz no time. Mas nas rodadas seguintes, com vitórias categóricas, a equipe conquistou confiança. E logo ficou claro a todos que acompanhavam o torneio que o título daquele ano ficaria entre o Botafogo e o Fluminense. A partida entre ambos, no returno, se enchia de expectativa. O Campeonato Carioca de 1907 seria praticamente decidido naquele jogo.

Botafogo, Botafogo, campeão desde 1907
 
O Jogo
 
Mais de quatro mil pessoas, concorrência altíssima para a época, se espremeram entre as arquibancadas de madeira e o entorno do campo do Fluminense, na Rua Guanabara. O jornal "Correio da Manhã", que classificou a assistência de "deslumbrante", destacou que nem mesmo a partida entre as seleções do Rio e de São Paulo conseguira atrair tamanho interesse do público.
 
A trajetória das duas equipes cativara a cidade, e a torcida da Zona Sul estava dividida entre os rivais. A crônica esportiva destacava que o Botafogo era o predileto entre as senhoritas, então presença enorme nos jogos, encantadas com a juventude dos alvinegros. Já o Fluminense, com seus atletas maduros de portentosos bigodes, contava com maior apoio entre os gentlemen cariocas.
 
Assim como no primeiro turno o Botafogo não contaria com o seu captain, Antônio Luiz. Desta vez, porém, o Fluminense sofria de idêntico desfalque: Edwin Cox, líder do Tricolor, não jogaria. As duas equipes estavam em igualdade de condições. E às 16h o juiz Carl Waymar deu início à partida.
 
A saída de bola era do Flu, mas os tricolores rapidamente perderam a posse para um determinado Botafogo, que quase abriu o placar no primeiro minuto, em um belo chute de Emmanuel Sodré, defendido com categoria pelo goleiro inglês Waterman. Mal o arqueiro tricolor repunha a bola em jogo, logo ela estava em pés botafoguenses. Waterman se destacava, com boas defesas, e um ofensivo Botafogo conquistava escanteios e faltas em sequência. O domínio era total. Porém, empolgado demais, o ataque alvinegro perdia boas chances cometendo faltas ou colocando-se em posição de impedimento.
 
O placar do jogo sairia do zero apenas na metade do primeiro tempo, em um belíssimo gol de Flávio Ramos. O craque botafoguense conseguiu driblar dois tricolores e penetrar na área. O valente goleiro do Flu saiu para abafar, e também acabou driblado. Sem nenhum adversário pela frente Flávio, com calma, apenas caminhou com a bola para dentro do gol vazio, em meio aos hurrahs e aplausos da torcida: 1 a 0 para o Botafogo.
 
O gol acordou o Fluminense, que passou a atacar mais. E após confusão na zaga alvinegra, que parecia distraída com a vantagem, Oswaldo conseguiu achar um gol para o clube das Laranjeiras: 1 a 1, e ovação ruidosa da torcida. O Flu se empolgou, e o panorama do jogo mudou: agora eram os tricolores que martelavam no ataque, e Álvaro Werneck, o goleiro botafoguense, salvava o seu time com belas defesas. Para a sorte do Botafogo, a primeira etapa terminou sem que o Flu conseguisse a virada. E enquanto os tricolores comemoravam a reação da equipe, os alvinegros mostravam apreensão.
 
Felizmente o Botafogo voltou mais concentrado para o segundo tempo. E logo no início Gilbert Hime marcou o gol que daria tranquilidade ao time, após troca de passes, com calma, do ataque botafoguense: 2 a 1. A torcida do Bota aplaudiu a jogada, bem trabalhada, e voltou a se animar. O Alvinegro parecia, novamente, perto da vitória.
 
O jogo estava mais bem disputado do que na primeira etapa, com avanços consistentes das duas equipes – mas o Botafogo estava melhor. Porém quem conseguiu mais um gol foi o Fluminense. Oswaldo Gomes avançou pela direita e chutou forte, com direção, marcando o seu segundo gol e empatando novamente a partida: 2 a 2.
 
Desta vez o gol tricolor não abateu a equipe. O Botafogo continuou mais perigoso, e a vitória parecia questão de tempo. E foi em um dos muitos avanços alvinegros que Flávio Ramos conseguiu chutar para as redes: 3 a 2 para o Botafogo. A torcida do Alvinegro, eufórica, fez um barulho impressionante que a "Gazeta de Notícias" assim chamou: "a mais ruidosa das ovações, a mais estridente das berrarias jamais feitas!". O jogo foi interrompido, enquanto Flávio corria para a torcida, em meio a chapéus que voavam e os lenços sacudidos pelas senhoritas da arquibancada. A confiança dos alvinegros era total: naquele momento, sabiam que o Fluminense não tornaria a empatar.
 
Logo em seguida Flávio Ramos marcou mais um gol – mas desta vez o juiz Carl Waymar anulou, alegando impedimento. O Fluminense não se entregava, mas a superioridade botafoguense só aumentava. E faltando pouco para o fim, o Alvinegro ampliou. Após cobrança de escanteio, Flávio Ramos emendou, fazendo seu terceiro tento na partida e fechando o placar: Botafogo 4 a 2. Com a vitória, o Bota empatava em pontos perdidos com o Fluminense na primeira colocação, tendo cada um sofrido apenas uma derrota. E enquanto os tricolores teriam ainda mais duas partidas pela frente, os alvinegros só teriam uma.
 
O feito foi comemorado após o jogo, com uma passeata dos craques botafoguenses em automóveis pela Avenida Beira Mar. Os atletas eram saudados com animação por seus torcedores, os primeiros botafoguenses, os primeiros apaixonados por um clube que começava a se tornar um gigante do futebol brasileiro. Aquela partida fora um divisor de águas no futebol carioca. O Fluminense finalmente tinha um rival à altura.
 
O campeonato, porém, não terminaria bem. O último compromisso do Botafogo, contra a Associação Athletica Internacional, em 29 de setembro, não aconteceu. O clube tijucano compareceu com apenas seis atletas considerados titulares – os primeiros quadros – e não aceitou escalar alguns reservas – que disputaram normalmente a partida de segundos quadros –, preferindo desistir do jogo. O Bota ganhou os pontos da partida, e para não perder o dia enfrentou amistosamente uma seleção da Liga Metropolitana, vencendo por 3 a 1.
 
A recusa sem justificativa de jogar da Internacional teve como consequência a suspensão do clube por uma rodada, a que faria contra o Fluminense no dia 6 de outubro, que assim também conseguiu uma vitória por walk-over. No dia 20 de outubro, o clube da Tijuca pôde enfrentar normalmente o Paysandu, em um jogo que já não valia nada. E quando o Tricolor venceu sua última partida, fechando o campeonato, a situação que os dirigentes da liga temiam se concretizou: Botafogo e Fluminense estavam empatados na primeira colocação. E o regulamento, malfeito, não previa qualquer forma de desempate.
 
Situação semelhante ocorrera na segunda divisão de 1906. Riachuelo e America terminaram o campeonato na liderança, e o regulamento informava apenas que o clube com mais pontos seria o vencedor. À época, os dois times entraram em um acordo, e disputaram uma partida extra para definir o campeão. As diretorias de Botafogo e Fluminense, porém, vinham se estranhando desde o início da competição, impossibilitando qualquer tipo de entendimento. Cada um defendia a proposta de desempate mais conveniente e, irredutíveis, deixaram a Liga Metropolitana de mãos atadas.
 
O Botafogo, com o precedente aberto pela decisão da "segundona" do ano anterior, exigia um jogo-extra para definir o campeão – naturalmente contando que o resultado da última partida entre as equipes se repetiria. O Fluminense afirmava que o clube com melhor goal average deveria ficar com a taça, e ponto final – e obviamente era o próprio o detentor de tal marca.
 
Após muita discussão, resoluções aprovadas pela diretoria e anuladas pelo conselho, demissões e entregas de cargo, nada foi decidido, e a Liga foi extinta sem proclamar um campeão. Apenas em 1989 o assunto foi retomado, e em 1996 Botafogo e Fluminense foram proclamados campeões empatados. A pedra sobre o Campeonato Carioca de 1907 finalmente fora colocada. Mas a rivalidade entre Botafogo e Fluminense, surgida nesse ano, permanece.
 
 
== Ficha técnica ==
 
Domingo, 22 de setembro de 1907
Fluminense 2 x 4 Botafogo – Local: Campo da Rua Guanabara
Campeonato Carioca – 2º Turno
 
Fluminense: Waterman, Victor Etchegaray e W. Salmond; João Leal, Edgard Gulden e Alberto Borgerth; Oswaldo Gomes, Alex Martins, Reidy, Emile Etchegaray e Félix Frias. Técnico: Ground Committeé.
 
Botafogo: Álvaro Werneck, Raul Rodrigues e Octávio Werneck; Norman Hime, Ataliba Sampaio e Lulú Rocha; Rolando de Lamare, Flávio Ramos, Canto, Gilbert Hime e Emmanuel Sodré. Técnico: Ground Committeé.
 
Árbitro: Carl Waymar, sócio do Fluminense.
Gols: Flávio Ramos e Oswaldo Gomes no 1ºT; Gilbert Hime, Oswaldo Gomes e Flávio Ramos (2) no 2ºT.
 
Público: 4.000 (aproximadamente)