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Tu és o Glorioso - 27

Nunca foi tão fácil: o Campeonato Carioca de 1961 ganho pelo Botafogo
Atualizado em 12-11-2015, 18h20

Por Auriel de Almeida - Historiador

O Campeonato Carioca de 1961 terminou da mesma forma que o de 1962 terminaria: Botafogo campeão, e vitória de 3 a 0 sobre o Flamengo na última rodada. Só que neste ano, o jogo não valeu o título, mas um final perfeito para a excepcional campanha do Glorioso.

Aquele Botafogo, recheado de craques da Seleção Brasileira, era visto com desconfiança pelos jornalistas após as decepcionantes temporadas de 1959 e 1960, e taxado pela torcida como um time "sem alma". Mas o ambiente começaria a mudar com a chegada do técnico Marinho Rodrigues, ex-zagueiro do clube: jogando sério e respeitando os adversários, o Alvinegro finalmente fez valer sua superioridade no Campeonato Carioca.

Caminhando tranquilo pelos três turnos da competição, sempre no topo da tabela, sem derrotas, o Glorioso chegou a disputar amistosos no exterior durante a competição. A torcida, confiante no título, levava aos estádios a faixa com a inscrição “Nunca foi tão fácil”. E tamanha confiança voltou a fazer mal à equipe.

Pprecisando apenas de um empate contra o America para ser campeão com três rodadas de antecedência, em 17 de dezembro, o Botafogo jogou com uma displicência nunca vista no ano, perdendo o jogo e a invencibilidade no torneio com um gol contra de Zé Maria no último minuto. Por capricho do destino a combinação de resultados – incluindo uma surpreendente vitória do Olaria sobre o Vasco da Gama – acabou dando a taça aos alvinegros no mesmo dia, mas a torcida detestou ver a oportunidade de o título ser invicto ir pelo ralo. Tornou-se questão de honra que o Glorioso se despedisse do campeonato mais fácil de sua história com boas exibições.

A tarefa começou a ser cumprida com a vitória sobre o Vasco da Gama, por 2 a 1, em 22 de dezembro. E na semana seguinte, finalizando o torneio, o rival seria o Flamengo. Os rubro-negros queriam muito a vitória que os consolidaria na segunda colocação e carimbaria as faixas do campeão – uma honra e tanto, dada a superioridade alvinegra. Mas o Botafogo não deu "mole" para o adversário.

O Jogo

Os dois clubes contavam com importantes desfalques, o que aumentava a imprevisibilidade do confronto. Do lado rubro-negro, Dida, Joubert e Henrique não jogariam. E do lado alvinegro, Didi, Nílton Santos e Amoroso estavam de fora – sem contar o goleador Quarentinha, que não jogou uma só partida do campeonato, em recuperação de uma cirurgia nos meniscos. Mas os que viram a partida final, dominada por tranquilidade pelo campeão de 1961, podem ter pensado que apenas o Flamengo jogava incompleto.

O Rubro-Negro começou o jogo em ritmo frenético, se jogando ao ataque a qualquer custo. E o Botafogo aceitou essa falsa pressão, rechaçando facilmente os avanços do esforçado rival, panorama que durou o primeiro tempo inteiro, para desespero da torcida flamenguista. A defesa botafoguense estava tão bem postada que mesmo sem grande postura ofensiva foram dos alvinegros as melhores chances da etapa, com China chutando para fora aos 10 e 18 minutos. E pouco antes do apito do juiz, seria o Glorioso a abrir o placar. Zagallo e China trocaram passes com facilidade, o último enganou dois adversários e chutou de longe, no canto do gol de Fernando, que pulou mal: 1 a 0 para o Botafogo.

No segundo tempo o Flamengo seguiu empenhado, mas sem preocupar. O Rubro-Negro mal conseguia passar do meio-de-campo – e, quando passava, não levava perigo real ao gol adversário. E quando o domínio dos botafoguenses tornou-se, aos poucos, mais ofensivo, veio o tiro de misericórdia. Amarildo, aos 15 minutos, deu uma arrancada incrível desde o meio-de-campo, passou entre dois marcadores, esperou o goleiro Fernando sair e chutou por baixo do corpo do rival: 2 a 0, em um gol chamado de “à la Pelé” pela imprensa.

O adversário desabou com o segundo tento e a partida, que já parecia um amistoso de um gigante contra uma equipe pequena do interior, ganhou ares de jogo-treino. Aos gritos de “é campeão” de sua apaixonada torcida, o Glorioso tocava a bola, com calma, e esperava os momentos certos para dar o bote. Após algumas boas chances desperdiçadas, o jogo ganhou números finais aos 23 minutos, quando Zagallo cruzou para China, este subiu junto com Bolero e a bola espirrou para trás. Amarildo pegou a sobra, passou por Jadir e chutou forte, sem defesa: 3 a 0 para o campeão de 1961. Os flamenguistas reclamaram bastante do lance, pedindo impedimento de China no momento do cruzamento. Mas a filmagem do gol pelo Canal 100 não deixou dúvidas: o gol foi legal.

O único lance digno de registro dos rubro-negros foi a expulsão do atacante Babá, por reclamação excessiva, aos 40 minutos. O inconformado jogador ainda fez uma pequena cena antes de sair, mas nada que atrapalhasse a festa.

A vitória por 3 a 0 foi, com a licença do clichê, uma chave de ouro para um campeonato brilhante. Com o resultado o Botafogo terminou a competição com incríveis oito pontos de vantagem sobre o vice-campeão – ou melhor, os vice-campeões, pois o derrotado Flamengo acabou dividindo a segunda colocação com Vasco e Fluminense, situação jamais repetida. O Glorioso ainda encerrou o ano com as marcas de melhor ataque, melhor defesa, e artilheiro do campeonato – Amarildo, com 18 gols. Um desempenho para a história.

== Ficha técnica ==


Domingo, 28 de dezembro de 1961
Botafogo 3 x 0 Flamengo – Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
Campeonato Carioca – 3º Turno

Botafogo: Manga, Cacá, Zé Maria, Paulistinha e Rildo; Ayrton e Édison; Garrincha, China, Amarildo e Zagallo. Técnico: Marinho Rodrigues.

Flamengo: Fernando, Ouraci, Jadir, Bolero e Jordan; Carlinhos e Gérson; Carlos Alberto, Ayrton, Germano e Babá. Técnico: Fleitas Solich.

Árbitro: Guálter Portela Filho (GB).
Gols: China aos 43/1ºT; Amarildo aos 15/2ºT e 23/2ºT.
Expulsão: Babá.

Público: 40.000 (aproximadamente)