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Tu És o Glorioso - 22

No título de 1990, Botafogo supera adversários dentro e fora de campo
Atualizado em 13-07-2015, 19h00

Por Auriel de Almeida - Historiador

No ano seguinte à conquista do Campeonato Estadual de 1989 o Botafogo se apresentou com uma equipe ainda mais forte, disposto a mostrar que o fim do jejum de 21 anos sem títulos do clube não fora um evento isolado, mas o marco de uma nova fase de glórias. E o bicampeonato do Rio de Janeiro era considerado por todos como indispensável para a afirmação de que o Glorioso estava de volta ao seu posto natural, o de gigante do futebol carioca e brasileiro.

A campanha do Botafogo no primeiro estadual da década foi quase perfeita – apenas uma derrota em 23 partidas, impedindo que o clube repetisse a marca de 1989, quando foi campeão invicto. O responsável pelo tropeço alvinegro, surpreendentemente, não foi o Vasco da Gama, o Fluminense ou o Flamengo, mas o modesto e esforçado América de Três Rios, em uma daquelas zebras feitas para atrapalhar a vida de qualquer apostador.

Mas se em campo o Glorioso encontrou poucos adversários, o mesmo não se pode dizer fora dele, já que o título terminou em uma disputa nos tribunais acerca do regulamento do Campeonato Estadual.

Tudo começou durante o longo intervalo de três meses entre a primeira fase da competição e a fase final. A parada coincidia com a disputa da Copa do Mundo daquele ano, e num momento em que poucos estavam de olho foi alterada em conselho arbitral a interpretação de um ponto crucial do regulamento, que definia as vantagens para a finalíssima do torneio.

A regra original era até certo ponto simples. Os clubes se enfrentavam em turno e returno, classificando-se para a fase final o campeão da Taça Guanabara (primeiro turno), o campeão da Taça Rio (segundo turno) e a equipe com o maior número de pontos na soma dos turnos. Caso o mesmo time conquistasse as duas taças, naturalmente tornando-se detentor da melhor campanha geral, seria proclamado campeão sem a necessidade de finais. E caso o vencedor de um dos turnos fosse também a equipe com o maior número de pontos na fase inicial, disputaria uma final com o vencedor do outro turno com uma enorme vantagem: poderia apenas empatar para ficar com o título e, se perdesse no tempo normal, ainda poderia buscar o empate em uma prorrogação.

Mas nenhum desses cenários extras aconteceu. Ao final da primeira fase, disputada entre janeiro e abril daquele ano, exatamente três clubes se classificaram para as finais: o Botafogo, primeiro colocado geral, o Fluminense, campeão da Taça Rio, e o Vasco da Gama, campeão da Taça Guanabara. E quando o campeonato foi interrompido para a disputa da Copa do Mundo, todos acreditavam que as finais seriam realizadas conforme o regulamento, com os vencedores de turno disputando a semifinal e o vencedor desta enfrentando o Glorioso, a melhor equipe da primeira fase, na final, sem nenhuma vantagem.

Porém num dia 13 de junho, quando todos os olhos estavam voltados para a fase de grupos da maior competição de futebol do mundo, veio a proposta no conselho arbitral: o Vasco defendia que, caso vencesse a semifinal, somaria mais dois pontos aos conquistados no primeiro turno e passaria a ser a equipe com a melhor pontuação, superando o Botafogo. E, com isso, teria a vantagem do empate para ser campeão e direito a jogar a prorrogação em caso de derrota no tempo normal da finalíssima.

O Botafogo defendeu que o regulamento dizia claramente que a pontuação era referente apenas à primeira fase, recebendo o apoio do Flamengo e do Nova Cidade mas a Federação e os demais clubes apoiaram a interpretação do Vasco, que depois venceu o Flu e se classificou para a final. E os botafoguenses, indignados, prometeram disputar a final de acordo com as regras originais.

Vídeo da final



O Jogo


Só 35 mil pessoas foram ao Maracanã naquele domingo, e ninguém sabia dizer, com clareza, que clube precisava do quê para ser campeão. E as próprias equipes pareciam indecisas, pois não se arriscavam muito, fazendo um jogo morno.

As principais chances foram em bolas paradas, e nenhuma tão perigosa: Paulo Roberto, aos 10 minutos, desperdiçou uma boa falta a favor do Alvinegro, chutando para fora. Pouco depois foi a vez do Vasco; primeiro com Célio, que chutou na barreira, e depois com Luiz Carlos, que levantou para a área e Gonçalves interceptou. Os cruzmaltinos ainda conseguiram uma sequência absurda de escanteios, todos cortados sem susto pela zaga botafoguense.

O segundo tempo começou mais animado, com uma cabeçada de Luiz Carlos na trave aos seis minutos. Mas logo a partida voltou a ficar truncada, com muita movimentação e poucas oportunidades. Em uma delas o alvinegro Renato recebeu por trás da zaga rival e soltou uma bomba no poste esquerdo. Na sobra, Donizete deu uma furada inacreditável. Mas aos 34 minutos, quando tudo indicava que o placar não sairia do zero, veio a jogada decisiva. Carlos Alberto Dias lançou Valdeir pela direita, e o “The Flash” centrou para Donizete, que tirou Célio da jogada e esticou demais. Mas Carlos Alberto, na corrida, já havia chegado na bola e emendou: 1 a 0 para o Glorioso, gol que naquelas circunstâncias definiu a partida, encerrada sem outro lance de destaque.

O que aconteceu após o apito final, lamentavelmente, ofuscou o resultado em campo. Conforme prometido o Alvinegro recusou-se a jogar a prorrogação, recebeu o troféu, oferecida pela extinta Rede Manchete, e deu a volta olímpica saudado pelos torcedores, enquanto os vascaínos esperavam sentados. Após a festa botafoguense o juiz Cláudio Garcia encerrou oficialmente o jogo, anotando na súmula uma vitória do Vasco na prorrogação por desistência do rival, e foi a vez dos cruzmaltinos darem a volta olímpica, com uma caravela de papel improvisada no lugar da taça. E o título foi parar na justiça.

Os mais pessimistas acreditavam que a briga se arrastaria por mais de dois anos, mas a sentença do Tribunal da Federação foi rápida e assustadora: o título era do Vasco, e o Botafogo foi imediatamente desfiliado da entidade. Chocados, os alvinegros recorreram no Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, que no dia 9 de agosto anulou a decisão da FFERJ, considerando sem efeito a mudança de interpretação do regulamento pelo Conselho Arbitral, realizada no meio da competição e sem unanimidade – Botafogo, Flamengo e Nova Cidade não eram a favor – e ordenando a refiliação do clube à entidade estadual. O placar da nova decisão: 7 a 1 para a Estrela Solitária.

Percebendo-se derrotado, o Vasco saiu da disputa e seu presidente, Eurico Miranda, anunciou: “a briga é entre o Botafogo e a Federação”. O presidente da FFERJ Eduardo Vianna até prometeu recorrer, mas acabou desistindo – a repercussão na imprensa já era negativa demais. E, no fim, valeu a palavra do STJD: “Se o Botafogo não fosse proclamado o campeão, a moralidade esportiva estaria comprometida”.

== Ficha técnica ==

Domingo, 29 de julho de 1990
Botafogo 1 x 0 Vasco da Gama – Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
Campeonato Estadual do Rio de Janeiro – Final

Botafogo: Ricardo Cruz, Paulo Roberto, Wilson Gottardo, Gonçalves e Renato Martins; Carlos Alberto Santos, Luisinho e Djair (Gustavo); Donizete, Valdeir e Carlos Alberto Dias. Técnico: Joel Martins da Fonseca.

Vasco da Gama: Acácio, Luiz Carlos Winck, Célio Silva, Quiñonez e Mazinho; Zé do Carmo, Marco Antônio Boiadeiro e Bismarck; Tita, Sorato e William (Roberto Dinamite). Técnico: Alcir Pinto Portela.

Árbitro: Cláudio Garcia (SP).
Gol: Carlos Alberto Dias aos 34/2ºT.

Público: 35.083

Vídeo: todos os gols da campanha