notícia

Tu És o Glorioso - 14

Geração campeã: saiba como o Botafogo conquistou o tetracampeonato carioca em 1935
Atualizado em 23-04-2015, 13h30

Por Auriel de Almeida - Historiador

O Botafogo começou a década de 30 com tudo. Campeão carioca em 1930, da Taça dos Campeões Rio-SP em 1931 e campeão carioca em 1932, 1933 e 1934, o clube tinha uma meta definida para 1935: conquistar o tetracampeonato estadual e, de quebra, consagrar-se o primeiro campeão profissional oficial (isto é, reconhecido pela Confederação Brasileira) do Rio de Janeiro.

O Glorioso era considerado o time mais forte da cidade, mas o Vasco da Gama não ficava muito atrás. E a competição daquele ano foi uma verdadeira maratona – três turnos, disputados entre maio de 1935 até janeiro de 1936, que exauriram os clubes. Em seu último compromisso o Botafogo enfrentaria o Andarahy, já então sem chances de título e consolidado na terceira colocação.

Os alviverdes da Zona Norte eram adversários perigosos, tendo vencido o Vasco por 3 a 0 na casa do adversário e empatado com o Glorioso em 3 a 3 no turno anterior, mas os alvinegros demonstravam confiança. Na tabela, um ponto de diferença para os cruzmaltinos, que enfrentariam o São Cristóvão na partida derradeira do campeonato. Ou seja, uma simples vitória garantia o título ao Botafogo. Qualquer outro resultado poderia estragar o esforço de um campeonato inteiro.

O JOGO

A partida que decidiu o Campeonato Carioca foi disputada em uma rodada dupla sensacional no Estádio São Januário. Além do jogo entre Botafogo e Andarahy o público assistiria ao amistoso Vasco da Gama e Huracán, equipe argentina em excursão badalada pelo Brasil, ambos com transmissão ao vivo da Rádio Tupi. O grande evento teve um efeito previsível – os vascaínos, que dependiam de uma vitória alviverde para seguir sonhando com o título, torceram ardorosamente pelo rival do Glorioso, levando um cronista a afirmar que “jamais o Andarahy teve tanta torcida a seu favor”.

A bela tarde esportiva, infelizmente, foi atrapalhada pelo forte calor, que chegou a atrasar o início das partidas e impediu o comparecimento de um público maior. O jornal “A Noite” foi categórico: era preciso planejar melhor o calendário (sim, já se discutia isso há 80 anos...).

Antes do jogo, os botafoguenses pregavam respeito ao adversário, mas se diziam confiantes – afinal, se mantiveram no topo durante toda a competição. Os alviverdes, interrogados se “jogariam pelo Vasco”, responderam com classe: “a nós interessa o Andarahy e nada mais”, lembrando que o time jogava para vencer sempre e, independentemente de uma vitória tirar o título do Glorioso ou não, seriam sempre lembrados pelo feito.

E para a alegria dos vascaínos, a maioria presente no estádio, o Alviverde da Zona Norte mostrou logo aos três minutos que buscava mesmo a vitória: Chagas, em bela jogada individual, entrou na área e chutou rápido, rasteiro, fazendo 1 a 0 para o Andarahy. Festa na torcida cruzmaltina, e preocupação na botafoguense. Mas o alívio veio rápido: três minutos depois Álvaro, após breve confusão na área rival, conseguiu marcar o gol de empate. Mais concentrado, o Botafogo passou a mandar na partida, como o esperado, embora desse brechas para alguns contra-ataques alviverdes.

Aos 20 minutos, veio a virada, com uma ajudinha do goleiro rival. Álvaro, novamente ele, chutou sem muita força, no canto, bola defensável que Diógenes deixou passar: 2 a 1 para o Glorioso. Euforia alvinegra com a virada, e vaias vascaínas para o pobre arqueiro andaraiense. Parecia que não ia dar zebra – até que surgiu um novo problema. Leônidas da Silva dividiu de carrinho uma bola contra um adversário e sofreu uma distensão. Quis continuar em campo, mesmo machucado, e o Bota diminuiu o ritmo, terminando o primeiro tempo sem mudanças no placar.

Na volta do intervalo o técnico Carlito mudou o jogo para poupar o atleta, movendo Martim para a meia-direita, colocando Luciano em sua posição e sacando Affonso. E no primeiro lance da etapa parecia que tudo estava bem, pois o Botafogo ampliou o placar, com um ótimo passe de Carvalho Leite para Patesko, que na cara do gol marcou: 3 a 1. Mas logo se viu que a mudança não deu certo. O Alvinegro simplesmente travou em campo e o Andarahy começou a crescer em cima de Luciano, que jogava mal pelo meio.

Em um espaço de minutos a partida ganhou contornos dramáticos. Mesmo apertado por Octacílio, o andaraiense Mineiro carregou a bola, entrou na área e chutou no cantinho, diminuindo o placar. Três minutos depois, em cobrança de escanteio, Chagas bateu e Bianco empatou para o Alviverde. Com o gol de empate o Botafogo se descontrolou completamente, e no lance seguinte viu Mineiro entrar como quis na área para marcar o gol da virada: 4 a 3 para o Andarahy e delírio da torcida vascaína.

Carlito Rocha, desesperado, mexeu na equipe, devolvendo Martim à sua posição original e finalmente sacando o machucado Leônidas, que deu lugar a Eurico Viveiros. O Glorioso melhorou no jogo, mas o que fez a diferença mesmo foi a vontade da equipe. Na base do abafa, a dez minutos do fim do jogo, o ídolo Carvalho Leite empatou: Russinho arriscou de fora da área, Diógenes largou, e a “Maravilha da Serra” pegou o rebote: 4 a 4, em lance que fez o ídolo chorar na comemoração.

E quando só faltavam mais quatro minutos para o fim, veio o lance decisivo. Falta perigosa a favor do Alvinegro, com Russinho na cobrança. Em meio à expectativa das torcidas, o atacante correu, chutou e... a bola bateu na trave, na linha e entrou, devagarzinho. Os zagueiros alviverdes até tentaram tirar de dentro, mas não conseguiram. E todos souberam que, ali, o torneio estava decidido. A festa era mesmo do Botafogo, Glorioso e, agora, Tetracampeão.

== Ficha técnica ==

Domingo, 26 de janeiro de 1936
Botafogo 5 x 4 Andarahy – Local: Estádio São Januário
Campeonato Carioca – 3º Turno

Botafogo: Alberto, Octacílio e Nariz; Affonso (Luciano), Martim e Canalli; Álvaro, Leônidas da Silva (Eurico Viveiros), Carvalho Leite, Russinho e Patesko. Técnico: Carlito Rocha.

Andarahy: Diógenes, Bahiano (Gomes) e Cazuza; Bethuel, Baby e Venerotti; Chagas, Astor, Romualdo, Bianco e Mineiro. Técnico: Ground Committeé.

Árbitro: Lóris Cordovil (DF).
Gols: Chagas aos 3/1ºT, Álvaro aos 6/1ºT e Álvaro aos 20/1ºT; Carvalho Leite aos 1/2ºT, Mineiro aos 21/2ºT, Bianco aos 24/2ºT, Mineiro aos 25/2ºT, Carvalho Leite aos 30/2ºT e Russinho aos 36/2ºT.

Público: 9.000 (aproximadamente)