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Tu És o Glorioso - 13

No ritmo da Dimbalada, Fogão é campeão carioca sobre o Vasco em 1997
Atualizado em 14-04-2015, 20h30

 

 



Por Auriel de Almeida - Historiador

O Botafogo já havia conquistado de forma invicta a Taça Guanabara e a Taça Rio de 1997, mas naquele ano isso não era suficiente para conquistar o título estadual. Houve ainda um terceiro turno, curtíssimo, que reuniu apenas as seis melhores equipes (sem valer troféu), e seu campeão, o Vasco da Gama, classificou-se para as finais contra o clube da Estrela Solitária.

A vantagem do Botafogo para a decisão do campeonato era boa – só precisava de uma vitória em uma série de três partidas. No primeiro jogo, disputado em um sábado, o Glorioso jogou muito abaixo do esperado e perdeu para o Vasco por 1 a 0, resultado que invertia a vantagem e poderia ser maior, não fosse o desempenho mais uma vez precioso do goleiro Wágner. Agora o clube cruzmaltino só precisava empatar duas vezes ou vencer a segunda partida para levar a taça do Campeonato Estadual para casa.

Se a torcida botafoguense ficou com a pulga atrás da orelha com o placar que ameaçava jogar por terra a campanha excepcional que o time vinha cumprindo até ali, ficou mesmo foi revoltada com a provocação de Edmundo, que no finzinho da partida resolveu rebolar na frente do ídolo Gonçalves antes de aplicar um drible, referência ao hit da época, a "Dança da Bundinha". O lance terminou em briga, e os jogadores botafoguenses, irritados, prometeram dar o troco na partida seguinte.

O JOGO

A segunda parte da final foi marcada para uma terça-feira, data infeliz que somada ao conturbado ano do futebol carioca espantou os torcedores botafoguenses e vascaínos do Maracanã, que preferiram assistir a partida de casa. O público, indigno de uma decisão de Campeonato Estadual, foi de pouco mais de 16 mil pagantes, que viram o Vasco da Gama mandar com sobras no jogo durante todo o primeiro tempo.

O Botafogo jogava mal como na primeira partida. O trio Edmundo, Juninho e Ramon comia a bola e só era parado por faltas desleais de seus rivais. Jogada após jogada os vascaínos se aproximavam do gol, mas concluíam muito pouco frente à firme defesa adversária, e quando conseguiam Wágner estava lá para salvar a pátria, como de costume. Mas mesmo com tantas dificuldades o domínio vascaíno era tamanho que o gol parecia questão de tempo.

Na jogada mais incrível, Ramon recebeu livre pela esquerda e enviou um canudo belíssimo com endereço certo no ângulo oposto, mas Wágner se esticou todo e conseguiu defender de mão trocada. Pouco depois Edmundo soltou uma bomba de fora da área que não se sabe como Wágner conseguiu segurar sem dar rebote. E quando o árbitro Sidrack Marinho encerrou o primeiro tempo sem gols, os alvinegros respiraram aliviados. Naquela situação, o zero era lucro.

A torcida do Glorioso estava bem preocupada. Até então tudo indicava que a equipe que fora brilhante durante todo o campeonato resolvera amarelar justo na decisão, atuando como um bando desentrosado e nervoso no primeiro jogo e na metade do segundo. Mas o time capitaneado por Gonçalves voltou mais controlado para a etapa final, conseguindo mostrar um pouco daquele futebol eficiente que conquistou dois turnos para a rapaziada da Estrela Solitária. E quando a partida estava equilibrada, com cheiro de empate sem gols, apareceu mais uma daquelas estrelas improváveis, a estrela de Dimba.

Considerado o talismã da equipe por Joel Santana, o reserva Dimba fora escalado como titular justo na final, e até então a aposta parecia um equívoco. Pior alvinegro em campo naquele dia, o atacante mal era notado, e quando aparecia no jogo era errando tudo o que tentava, em performance indigna de nota. Mas Dimba logo transformaria o zero em dez, quando aos 33 minutos protagonizou um lance digno de Garrincha.

Tudo começou com uma ótima cobrança de lateral de Wilson Goiano pela direita. O craque lançou para Dimba, que recebeu coladinho à linha lateral, bem perto da linha de fundo, e o talismã viu Fabrício e Felipe chegarem juntos para matar o lance, fazendo um "sanduíche". Só que com aquele espaço mínimo de chão, como em uma jogada de futsal, Dimba girou e passou pelo meio dos rivais, entrando na grande área. Outro vascaíno, Luisinho, apareceu correndo para cortar, mas em outro lance de gênio Dimba tirou a bola com um toquinho, usando a velocidade do rival contra o próprio, que passou batido, e em seguida fuzilou cruzado, quase sem ângulo: Botafogo 1 a 0. Um gol lindo.

O Vasco da Gama, vendo o título escapar por entre os dedos, passou a atacar na base do desespero, e os últimos doze minutos foram de sofrimento para as duas torcidas. Com chutões de lado a lado, os vascaínos tentavam criar lançamentos e os botafoguenses só rechaçar o perigo adversário. Mas a rede não voltou a balançar: o golaço de Dimba, o herói da noite, foi mesmo o do título.

Os jogadores alvinegros, eufóricos, não tardaram a se vingar de Edmundo. Enfileirados na frente do atacante rival, repetiram a dancinha grotesca, que não pareceu tão feia assim naquela noite de festa. E sobrou até para a torcida vascaína, "homenageada" em seguida com a coreografia dos campeões à beira do fosso do Maracanã. De fato, quem dança por último, dança melhor.

== Ficha técnica ==

Terça-feira, 8 de julho de 1997
Botafogo 1 x 0 Vasco da Gama – Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
Campeonato Estadual do Rio de Janeiro – 2º jogo da Final

Botafogo: Wágner, Wilson Goiano, Jorge Luiz, Gonçalves e Jefferson; Marcelinho Paulista, Pingo, Djair e Aílton (Marcelo Alves); Bentinho e Dimba (Róbson). Técnico: Joel Santana.

Vasco da Gama: Caetano, Pimentel, Moisés, Alex e Felipe; Luisinho, Fabrício, Juninho Pernambucano (Luiz Cláudio) e Ramon (Brener); Pedrinho e Edmundo. Técnico: Antônio Lopes.

Árbitro: Sidrack Marinho (SE).
Gol: Dimba aos 33/2ºT.

Público: 16.854